A utilização indiscriminada de inseticidas químicos na pecuária e na agricultura causa grande polêmica no mundo inteiro. A busca por alimentos com menos resíduos de agrotóxicos, prejudiciais à saúde humana, tem impulsionado a demanda por produtos naturais e menos agressivos ao homem e ao meio ambiente. Neste sentido, o uso de plantas com propriedades inseticidas, fungicidas e raticidas se consolida como um instrumento alternativo no controle de pragas e insetos.
Pesquisas da Embrapa Arroz e Feijão verificaram que certos vegetais possuem substâncias tóxicas que somente têm ação sobre os animais de sangue frio, não apresentando perigo algum para o homem e demais animais de sangue quente. Entre eles destaca-se o nim indiano, utilizado há séculos na Ásia, principalmente na Índia, como planta medicinal.
Natural de Burna e das regiões áridas do subcontinente indiano, o nim, conhecido na comunidade científica como Azadirachta indica A. Juss, é uma árvore frondosa que pertence à família Meliaceae, a mesma do mogno, da andiroba, do cedro e do cinamomo. Há mais de 2 mil anos, é usada na Índia para controle de insetos, pragas, nematóides, fungos, bactérias, na medicina humana e animal, no reflorestamento, como fertilizante na agricultura e também na fabricação de cosméticos. Além da Ásia, é cultivada nas Américas, na África e na Austrália.
No Brasil, o nim foi introduzido pelo pesquisador da Embrapa, Belmiro Pereira das Neves, em 1993. Por meio de um intercâmbio científico, o pesquisador importou cerca de 10 kg de semente de nim indiano da Fábrica de Inseticidas Naturais, denominada hoje Fundacion Agricultura y Médio Ambiente da Província de San Cristobal, na República Dominicana. Cerca de 5 milhões de árvores já foram plantadas em diversas regiões brasileiras.
Características
Estudos realizados pelo Iapar (Instituto Agronômico do Paraná) comprovam que a planta se desenvolve bem em temperaturas acima de 20 °C, em solos drenados, não ácidos e altitudes abaixo de 700 m. Nessas condições, pode iniciar a produção de frutos com 2 anos de idade, podendo atingir 10 kg de semente seca/planta, sendo que cada quilograma de sementes secas contém aproximadamente 3 mil sementes. Em condições menos adequadas, com clima subtropical, as plantas desenvolvem-se mais lentamente, iniciando a produção de frutos após cerca de 6 anos, atingindo a produção máxima de 3 a 4 kg de semente seca/planta após 10 anos do plantio.
Muito resistente e de crescimento rápido, pode alcançar até 25 m de altura. As folhas são verde-escuras, compostas e imparipinadas, com frequência aglomerada nos extremos dos ramos simples e sem estipulas. As flores possuem coloração branca e aromática, ambiente atraente para abelhas que utilizam as flores para extração do néctar. O fruto é uma baga ovalada com 1,5 a 2 cm de comprimento e, quando maduro, apresenta polpa amarelada e casca branca dura, contendo um óleo marrom no interior de uma semente ou, raramente, em duas. A árvore do nim torna-se completamente produtiva em 10 anos e, a partir daí, pode produzir até 50 kg de frutas por ano. O ciclo de vida do nim pode atingir 200 anos.
Cultivo
Segundo Belmiro, a árvore é de fácil propagação sexual e vegetativa. O seu plantio pode acontecer por meio de sementes, mudas, rebentos ou cultura de tecidos. A técnica de estaquia também é utilizada, porém, o desenvolvimento das raízes não se dá de modo adequado, tornando a planta suscetível à queda por ventos fortes. “A produção de mudas de nim nas regiões produtoras é efetuada preferencialmente através de sementes, que apresentam de 60 a 95% de viabilidade, oriundas de plantas previamente selecionadas, isentas de patógenos. Os métodos de enraizamento de estacas e o de cultura de tecidos são utilizados em menor escala”, completa o pesquisador.
O sucesso do plantio está estritamente ligado à coincidência do início da estação chuvosa da região. O pesquisador da Embrapa aconselha ainda que a distribuição das mudas deve ser feita de forma manual ou com auxílio de trator com carreta ou carroça de tração animal. “A muda é colocada no interior da cova ou sulco e coberta com terra, de forma que o torrão não fique exposto e a parte do caule não seja recoberta. O ideal é realizar uma pequena compactação da terra em torno da muda, para fornecer maior firmeza à planta”, aconselha Belmiro.
Manter a área limpa é outra recomendação de Belmiro. Segundo ele, a prática permite intercalar culturas anuais durante os primeiros anos. “O tronco das plantas deve ser mantido sem ramificações até 1,5 m de altura, posteriormente os ramos podem ser podados regularmente. Os ponteiros devem ser podados a 2,5 m. A árvore não fica muito alta, a copa desenvolve melhor, há maior produção de frutos e a colheita é facilitada”, recomenda.
Mercado
Ideal para a fabricação de móveis finos e artesanato. O nim é rico em tanino, o que o torna resistente aos ataques de cupim e traças. Conforme Belmiro, o metro cúbico da madeira é cotado a US$ 400, sendo a média de produtividade de 40 metros cúbicos por hectare. Além disso, as folhas são usadas como vermífugo adicionado à ração animal. Quando trituradas, servem ainda como um bom repelente para o gado. O quilo da folha chega a ser comercializado por R$ 2.
A planta ainda proporciona melhores qualidades de solo, já que a decomposição das folhas acontece rapidamente. “Por esse e outros motivos, vem sendo recomendada a inclusão da árvore em programas de reflorestamento, recuperação de áreas degradadas, bem como quebra vento em plantação de milho, resultando em 20% de aumento na produção de grãos. Recentemente tem despertado um enorme interesse por parte do setor pecuarista no estabelecimento de micro bosques, com intuito de aumentar a área verde da propriedade e também permitir o conforto do animal, o que resulta em maior produtividade”, esclarece Belmiro.
O pesquisador explica que o mercado do nim vivencia uma expansão, pois todas as partes da planta estão sendo utilizadas e comprovadas as suas eficácias. “As sementes são úteis na produção de gás metano e também como carboidrato, que é uma base rica para outras fermentações industriais. As folhas, além de possuírem excelentes propriedades medicinais, podem servir como alimento para ruminantes, caprinos e ovinos, quando misturadas com outras forragens. O óleo e a torta resultante da prensagem das sementes constituem num ótimo inseticida natural, que pode ser empregado no controle de pragas dentro da agricultura orgânica com objetivo de fornecer alimentos saudáveis. E exatamente por todas estas utilidades é considerada a árvore da vida”, completa.
Funcionalidades
Poucas plantas apresentam tantos usos potenciais como o nim. Suas propriedades são:
Fertilizante - O nim apresenta um considerável potencial como fertilizante, principalmente quando usado para aumentar a eficiência do uso de fertilizantes nitrogenados. Sendo antimicrobial, a torta de nim ou o extrato misturado com fertilizantes nitrogenados podem reduzir substancialmente as perdas de volatilização da amônia causadas por bactérias nitrificantes no solo. A causa da lenta nitrificação, após aplicarem-se extratos da pasta e do óleo, pode ser atribuída à redução da população de bactérias nitrificadoras. A pasta do nim também tem sido utilizada para adubar plantações comercias, principalmente a cana-de-açúcar e hortaliças como fonte de nitrogênio, fósforo, cálcio, magnésio e potássio. No solo, protege as plantas de nematóides e alguns tipos de formigas.
Uso medicinal – Fruto, sementes, óleo, casca do caule, folhas e raízes têm os mais variados usos anti-sépticos, antimicrobianos, nos distúrbios urinários, diarréias e doenças do couro cabeludo. O óleo e seus isolados inibem o desenvolvimento de fungos sobre o homem e animais. A ação antimalárica é atribuída ao gedunine, um limonóide. Tabletes e injeções contendo em suas formulações extratos de nim são usados no tratamento de malária crônica. As folhas são usadas contra erupções cutâneas e abcessos, e o suco das folhas é utilizado contra vermes intestinais.
Indústria de cosméticos - O óleo do nim é usado para a fabricação de xampu, óleo para cabelo, tônico capilar e óleo para unha. Na Alemanha, por exemplo, do tanino da casca do caule fabricam-se sabonete e pasta dental.
Inseticida - O nim e seus derivados chegam a afetar mais de 400 espécies de insetos pertencentes às ordens Coleoptera, Deptera, Heteroptera, Homoptera, Hymenoptera, Lepidoptera, Orthoptera, Thysanoptera, Neuroptera e alguns fungos. Os extratos do nim provocam distorções na metamorfose, inibição do crescimento, malformação, redução da fertilidade e mortalidade, principalmente de certos artrópodes que ingerem ou entram em contato com substratos tratados. Larvas de algumas espécies de lepidópteros e alguns estágios de desenvolvimento de coleópteros são particularmente sensíveis a este tipo de substrato.
Produção de biomassa - Após a maturação, a planta rende de 10 a 40 toneladas de matéria seca por hectare, dependendo das chuvas e das condições locais, como espaçamento e expressão do material genético. As folhas abrangem cerca de metade da biomassa produzida, enquanto frutos e madeira atingem em torno de 25% cada. A madeira do nim é dura, relativamente pesada e utilizada na confecção de carretas, ferramentas e implementos agrícolas. Por ser durável e resistente, é utilizada na fabricação de postes para cerca, casas e móveis. Além de ser excelente fonte de lenha e combustível, possuindo um carvão de alto poder calorífico.
Reflorestamento - Por ser uma árvore robusta, é ideal para programas de reflorestamento e para recuperação de áreas degradadas. Em sistemas agroflorestais, o nim é usado como quebra-ventos. Protegendo as culturas da ação dos ventos e do ressecamento, a árvore colabora para o incremento da produtividade das lavouras, além do fornecimento constante de matéria orgânica e da reserva de madeira para o futuro. Contudo, pesquisadores alertam que estudos devem prosseguir para se verificar com quais culturas o nim pode ou não ser plantado conjuntamente, devido ao fenômeno da alelopatia - incompatibilidade entre espécies devido à substâncias expelidas pelas raízes ou folhas.
Fonte: Painel Florestal